A região de São Paulo que eu cumpria mandados abrangia todas as classes sociais, desde a favela mais pobre à mansão mais rica. Eu ia cumprir diligências nas várias favelas situadas nos extremos da zona sul de São Paulo, nos cortiços do centro, mas também ia às mansões do Jardim Europa ou do Morumbi.
O contato com pessoas de classe alta era freqüente. Em uma época em que carro importado era algo somente acessível às classes altas (não haviam carros coreanos no mercado e apenas importados de alto luxo eram vendidos no Brasil a uns poucos privilegiados), eu fui cumprir um mandado quando me deparei com uma linda casa, com dois carros importados visíveis na garagem.
A empregada doméstica atendeu à porta. Era uma mocinha novinha, meio feinha, mas toda sorridente. Eu perguntei pela pessoa que deveria ser intimada e ela me respondeu toda feliz:
- Ele está para chegar. Ele foi a Brasília, teve uma audiência com o Presidente Sarney, mas já ligou do aeroporto dizendo que está a caminho. Você não quer entrar e esperar ele?
Eu achei estranho a empregada doméstica convidar para entrar um cara que ela nunca tinha visto na vista. Como eu tinha outro mandado para cumprir em um endereço próximo, disse que voltaria dentro de uma hora.
E voltei mesmo. Atendeu a porta a mesma mocinha e disse que o patrão já tinha chegado. Ela então me levou em direção a uma porta situada na lateral da casa e eu pude ver que, além dos dois carros importados estacionados na frente da casa, havia mais outros quatro carros no fundo. Um deles ela uma Porsche, achei que era uma 911, mas não tive certeza.
Eu fiquei esperando em uma salinha, semelhante às salas de recepção de grandes escritórios de advocacia, destinadas aos clientes top. A sala estava decorada com magníficos quadros de barcos e era em estilo inglês antigo. Em suma, era um luxo.
Em alguns instantes, chegou a pessoa que eu deveria intimar. Era um coroa bronzeado, que na época eu achei que deveria ter uns quarenta anos, mas acho que deveria ter uns cinqüenta. Eu expliquei para ele do que se tratava, mas ele já sabia de tudo. Embora ele tivesse acabado de chegar de viagem, não parecia nem um pouco cansado.
Eu perguntei como estava o trânsito de Guarulhos para o centro, só para puxar papo. Ele então me disse, sem tentar esconder a vaidade, que tinha vindo em um avião particular e pousara em Congonhas. Falou também da audiência com o Presidente Sarney, mas não entrou em detalhes a respeito do conteúdo da audiência, disse apenas que era relativo a um problema relacionado com tributação. O cara, sem dúvida alguma, era top. Nenhum Zé Mané iria ter acesso ao Presidente da República. Como eu tinha visto a casa do cara e os carros do cara, concluí que a história era verdadeira.
Ele então me perguntou se eu queria água ou queria beber alguma coisa. Eram umas cinco da tarde, provavelmente ele não tinha mais nada para fazer no dia e estava querendo companhia. Eu hesitei um pouco, fiquei pensando que o cara poderia ser bicha. Antes que eu dissesse sim ou não, ele tocou uma campainha. Surgiu outra empregada, também novinha e feinha, ele pediu água e whisky. Como o cara não tinha jeito nenhum de bicha, resolvi ficar e não desperdiçar a oportunidade de conversar com um magnata. Eu queria pedir para ele me mostrar os carros, mas não tive coragem. Perguntei se ele viajava muito e ele me respondeu assim:
- Olha, quando eu era mais novo viajava bastante, tanto a trabalho como a passeio. Agora me dá preguiça. A última viagem que fiz foi ao Caribe com um casal de amigos que tem um veleiro lá.
Talvez isso explicasse o bronzeado do cara. Como ele falou que tinha viajado com um casal, fiquei tranqüilo, vi que ele não era bicha mesmo e só nessa hora comecei a beber o whisky, já convencido que eu não iria ser dopado pelo cara.
Continuamos conversando, ele me disse que tinha uma empresa em São Bernardo, mas que seu hobby era criar cavalos, falou de uma fazenda situada próxima na região de Campinas (não me lembro o nome da cidade), falou que tinha se separado recentemente e que estava curtindo a vida. Percebi, claramente, que se tratava de um cara que resolveu ser playboy depois de velho. Ele me disse que tinha um único filho, que estava estudando na Suíça.
Nisso chegou um amigo dele, um outro cara mais ou menos da mesma idade que ele, e eu achei que era hora de ir embora. Me levantei para me despedir e o cara respondeu:
- Fica aí, Bruno, acabe primeiro o seu whisky! O fulano é um irmão para mim.
Eu estava realmente incomodado, porque estava no final de um dia trabalho, suado, e em comparação com os caras, estava mal vestido. Mais uma vez fiquei na dúvida do que fazer. Eles então me chamaram para ir até uma outra sala da casa, que era como um jardim de inverno de grandes proporções. Parecia que eu estava em um filme.
Os dois ficaram conversando, eu fiquei um pouco deslocado. Depois chegaram duas garotas lindas, que deveriam ser pouco mais velhas que eu. Aí eu tive certeza que era hora de ir embora. Me despedi gentilmente, agradeci o whisky e fui embora. A empregada feinha me levou até a porta, me disse para voltar lá qualquer dia.
Algum tempo depois, por acaso, eu encontrei o cara na sala de audiência do juiz. Eu estranhei a presença dele lá, porque ele tinha me dito que não poderia ir na data marcada porque estaria na Europa naquele dia. Eu fiquei pensando um meio de puxar conversar com o cara, mas não teve jeito. Ele foi embora rapidamente depois do seu depoimento, disse que estava atrasado para uma reunião. Evidentemente, um ricaço como ele não iria querer ficar perdendo tempo no fórum criminal. Nunca mais vi o cara, fiquei só imaginando como seria a vida de um magnata daquele tipo, separado da mulher, morando em uma puta casa e com o filho estudando no exterior.
Políticos e ex-políticos também eram meus “clientes”. Em geral, eram casos envolvendo crimes contra a honra, umas das raras hipóteses em que a ação penal não é movida pelo Ministério Público, mas sim pela suposta vítima do crime.
No caso concreto, não se tratava de uma ação penal, mas sim de uma medida chamada de “Pedido de Explicações”. O procedimento decorre do pedido de uma pessoa que, supostamente, teria ouvido alguém falar mal dele ou que alguém teria dito que alguém teria feito algo errado, coisa do tipo. Enfim, rola uma fofoca e a pessoa ofendida (chamado de “querelante”) ingressa em juízo com o “Pedido de Explicações” para que o suposto ofensor (chamado de “querelado”) seja intimado a se manifestar no sentido de explicar o que teria dito. Normalmente o querelado peticiona nos autos do Pedido de Explicação no sentido de que não disse nada de desabonador contra o Querelante e a coisa morre por aí.
Eu fui então intimar o querelado, cheguei ao endereço que constava do mandado. Era um escritório razoavelmente luxuoso. Mas não era dos mais bacanas que eu tinha visto. A secretária me atendeu, eu me identifiquei como Oficial de Justiça e ela me pediu para aguardar um pouco. Ela me deixou esperando na recepção, voltou em seguida e me disse que “o Deputado” iria me receber. O nome que constava do mandado não era de nenhum Deputado que eu conhecesse, mas eu não sabia o nome de todos. Entrei na sala e o suposto Deputado estava sentado atrás de uma mesa. Ele era de ascendência nipônica e usava uma bela gravata. Conversei um pouco com ele, expliquei o caso. Ele não sabia do que se tratava, perguntou se poderia chamar seu advogado antes de assinar, e me disse assim:
- Olha, eu já ajudei muito vocês.
Eu imaginei que ele estivesse se referindo à aprovação de uma lei que tinha concedido uma gratificação de 150% para os Oficiais de Justiça. A Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo tinha aprovado essa lei, mas o então Presidente do Tribunal de Justiça, por razões que eu não sabia, não tinha efetuado o pagamento. Óbvio que eu não conseguia entender como o próprio Judiciário descumpria uma lei. Muito tempo depois eu entendi que, na prática, as coisas funcionam de forma distinta da teoria.
Então perguntei:
- O senhor se refere ao caso dos 150%?
Ele me falou que sim, mas eu achei que ele estava mentindo.
De qualquer modo, disse que ele deveria primeiro assinar o mandado e que depois poderia falar com seu advogado. Mas ele antes telefonou para o tal advogado, explicou do que se tratava, e logo em seguida assinou o mandado.
Um ou dois dias depois eu recebi um recado do advogado da parte contrária, que queria falar comigo. Eu já sabia do que se tratava: o cara iria perguntar a respeito do cumprimento do mandado, provavelmente iria me oferecer dinheiro para cumprir a diligência rapidamente. Como eu já tinha cumprido o mandado, liguei do telefone do cartório para o advogado e disse que já tinha intimado o “Deputado”.
O advogado fez questão de me dizer que o réu não era um Deputado, mas sim um ex-Deputado, e me perguntou se eu gostaria de passar no escritório dele para tomar um café. Como eu imaginei que ele iria me oferecer dinheiro pelo cumprimento rápido do mandado, respondi que estava com muito serviço (o que era verdade), mas que em uma outra ocasião iria passar lá para conhecê-lo. Evidentemente, foi um jeito educado de dizer que eu não estava interessado em propina.
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quarta-feira, 22 de julho de 2009
Capítulo 14 - Políticos, empresários e prostitutas
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