A concessão do reajuste de 150% mencionada no Capítulo __ foi determinante para que minha vida mudasse para melhor. Naquela época eu era um sujeito bastante econômico, poupava quase tudo que ganhava, e estava com um dinheirinho guardado. Quando os 150% começaram a ser pagos, minha capacidade de poupança aumentou muito, exatamente porque minhas despesas continuaram as mesmas, mas a receita aumentou significativamente.
Aí a coisa ficou diferente. Eu comecei a ver que não precisaria levar a vida espartana que levava e passei (para os padrões da época) a gastar dinheiro. Mas ainda assim eu era muito comedido e ponderado. Não era, evidentemente, o perdulário que sou hoje...
Na verdade, eu ainda tinha uma certa rigidez em matéria de dinheiro. Um episódio emblemático revela isso, especialmente quando comparo com a mudança no meu comportamento que ocorreu depois.
Por uma estranha coincidência, um belo dia eu conheci a cabeleireira da minha mãe. A mina era uma lourinha tingida, que parecia a Madona (daquela época). Ela era meio breguinha, mas muito bonitinha. Acho que deveria ter a minha idade ou um ano a menos. Eu a chamei para gravar uns discos na minha casa e ela topou. Nesse dia a gente deu uns amassos, mas não rolou sexo. Eu a convidei para sair uns dias depois, fomos a uma pizzaria que na época era a melhor de São Paulo. O papo rolou legal. Eu pedi a conta e, justamente nessa hora, ela foi ao banheiro.
No meu modo de ver, como eu tinha convidado e ganhava mais dinheiro que ela, eu deveria mesmo pagar a conta. Mas naquela ocasião eu fiquei puto com a mina porque achei que ela só foi ao banheiro na hora da conta para não ter que dividi-la ou simplesmente achava que seria a minha obrigação pagá-la. Na época, eu achava que a boa educação a obrigaria a fazer um teatrinho, do tipo “vamos dividir a conta”, mesmo sabendo que quem iria pagar tudo seria eu. Mas isso não rolou e eu estava disposto a não ver a mina nunca mais. A despeito disso, como sempre fui um gentleman com as mulheres, eu a acompanhei até a porta da casa dela. Chegando lá, ela me chamou para subir, inclusive já tinha sinalizado que iria dar para mim naquela noite. Só que eu recusei: não estava nem um pouco interessado em comer uma mina que, dentro da ótica que eu tinha na época, era uma aproveitadora. Por aí dá para ver como eu era naquela época em matéria de dinheiro...
É óbvio que à medida em que fui ganhando mais dinheiro esse tipo de coisa foi mudando. Eu comecei a ver que poderia poupar e gastar com as coisas boas da vida. Vi também que não era nada demais o cara que ganha mais dinheiro pagar a conta quando sai com uma mina que ganha pouco ou não ganha nada, mesmo quando a mina tem a mais absoluta convicção de que isso é obrigação do cara.
Com dinheiro no bolso, comecei a freqüentar algumas boates bacanas. E se uma coisa São Paulo tem de bom, são boates de alto nível. Eu não gostava nem um pouco de lugar fuleiro, com filas quilométricas, gente amontoada e que fazia um esforço danado para mostrar que tinha dinheiro. Na minha faixa etária, quem tinha grana era eu e os filhinhos de papai. A diferença é que o meu dinheiro saía do meu trabalho e não da mesada do papai. Esse aspecto me fazia sentir um tanto superior aos boyzinhos, o que possivelmente me levava a ter um comportamento um tanto arrogante.
Em uma ocasião bem interessante, eu fui à boate que era considerada a top de São Paulo. Um amigo que tinha moto foi comigo, mas na hora de entrar ele desistiu (não me lembro o motivo) e eu entrei sozinho na boate. Achei que a noite seria uma merda, porque eu ficaria deslocado na boate, bebendo sozinho. Como ainda era cedo, a pista da boate estava fechada e eu fui para o balcão. Pedi um whisky e fiquei vendo o movimento. Como ocorre em qualquer boate top de São Paulo, o nível das minas era muito bom. E ficar nesse tipo de ambiente, mesmo sozinho, é bastante agradável. Não me lembro quantos whiskys eu tomei, mas num dado momento eu já estava tonto, chamando Jesus de Genésio e urubu de meu louro.
Três minas chegaram perto de mim conversando alto e dando risada. Não me lembro como, mas comecei a conversar com elas. Do jeito que eu estava bêbado, não tinha a menor condição de saber se elas eram bonitas ou não. O fato é que elas estavam no mesmo grau etílico que eu e o papo foi fluindo. Num dado momento, duas delas foram ao banheiro e eu lasquei um beijo na que ficou. Foi aquele beijo animal, coisa que deve ter chamado atenção, especialmente porque minha mão foi acariciar uma parte, digamos, um tanto íntima do corpo da garota. Mas eu não estava nem aí, estava pouco me lixando se alguém estivesse vendo ou que pudesse pintar um segurança para nos colocar para fora: bêbado não pensa nessas coisas. Quando as minas que tinham ido ao banheiro voltaram, continuamos conversando como se nada tivesse acontecido.
Eu queria rebocar a mina que eu tinha beijado para minha casa. Eu não tinha carro, não dava para ir a motel, mas meu quarto era liberado para esse tipo de coisa. Aí a coisa rolou de forma curiosa: as três quiseram ir dormir lá. Evidentemente, eu topei.
Meu quarto tinha duas camas. A mina que eu tinha beijado me pediu uma camiseta para dormir e eu, muito sacana, dei a ela a camiseta mais curta que eu tinha no armário. Ela foi ao banheiro e voltou vestindo a tal camiseta, com a calcinha aparecendo. Para fazer uma presepada, eu disse para as meninas que eu poderia dormir no chão e que elas poderiam dormir nas duas camas. Mas elas não concordaram: eu fiquei na minha cama, a mina que eu tinha beijado na outra cama e as outras duas minas ficaram no chão, em cima de alguns cobertores.
Eu então chamei a mina que eu tinha beijado para vir dormir na minha cama comigo. Ela topou e eu falei para as outras duas:
- Sobrou uma cama.
Elas me responderam, dando risada:
- Ah, nessas horas sempre sobra uma cama...
Comecei a fazer o que deve ser feito quando se está com uma mina na cama, quando percebi o que as outras duas estavam fazendo no chão. Comecei a dar uma gargalhada ridícula, porque jamais imaginaria ver duas minas transando no chão do meu quarto. A mina que estava comigo me repreendeu:
- Pára que você vai cortar o tesão delas!
Eu então recomecei as minhas atividades e deixei de prestar atenção nas outras duas. Finalizei a coisa da melhor maneira e dormi. No dia seguinte, meio de ressaca, mas com um nível de percepção da realidade razoável, pude ver que a mina que tinha ficado comigo era bonita (nota B para B+), pois não tive a menor vontade de catapultá-la da minha cama (isso acontecia quando eu ficava bêbado e pegava alguma baranguete). Quanto às outras duas, uma era incrivelmente linda (uma princesa, acho que nota A- para A, talvez até mais) e a outra era uma baranga sinistra (nota D+ ou pior). Fiquei imaginando que a baranga deveria ter iniciado a princesa no campo da homossexualidade feminina.
Peguei o telefone das três. Passei uns bons dias morrendo de medo de AIDS e de doença venérea (naquela época, transar sem camisinha era algo muito mais comum do que hoje). Depois passou o susto.
Cheguei a sair com a mina que eu já tinha comido mais uma vez, mas eu não comia uma mina mais do que duas vezes, simplesmente porque enjoava fácil. Tentei marcar um encontro com as três, para ver se rolava algo mais divertido, mas elas não toparam. Nunca mais as vi.
Em outra ocasião, na mesma boate, eu tinha sido convidado para uma festa da irmã de uma amiga minha. A irmã parecia que estava a fim de mim. Além disso, fui apresentado para uma amiga delas, que parecia ser bem interessante. Ela me disse que era parente não tão distante do Mussolini. Acreditei na história. Ficamos conversando enquanto eu pensava com qual das duas a ofensiva seria mais viável.
De repente, eu encontrei outra mina que eu estava dando em cima já há uns dias. O divertido dessa história é que essa outra mina estava parecendo uma puta de filme americano, com excesso de luzes no cabelo pintado de louro, uma maquiagem pesada, um short com um cinto esquisito, e um perfume doce, bem vagabundo, coisa de péssimo gosto. Mas por uma razão inexplicável, eu estava a fim de ficar com ela. Digo, um motivo racional eu tinha: as tetas da mina pareciam ser sensacionais (naquela época, em São Paulo, usávamos o vocábulo teta para designar peito, embora fosse grosseiro fazê-lo).
Como eu já estava disposto a gastar dinheiro, pedi uma champagne para tomar com ela. Evidentemente, não era champagne porra nenhuma, era um espumante qualquer, que devia ser uma bosta. Naquela época, nós chamávamos de champagne qualquer vinho frisante. O fato é que aquilo era chique e começamos a beber juntos. O primeiro beijo rolou enquanto estávamos sentados, mas logo ficamos em pé. A alcinha da blusa dela insistia em cair, ela arrumava, e a coisa ia pegando fogo. Ela era mais baixa que eu, mas estava com um salto bem alto, de modo que ficamos praticamente da mesma altura. Começou aquele suadouro, ela estava doidinha por causa da birita, então a chamei para irmos para minha casa. Ela aceitou na hora, sem oferecer a menor resistência. Foi uma bela noite, a despeito do perfume vagabundo.
Depois dessa noite eu ainda peguei essa mina outra vez, em uma tarde, na sala da Academia de Letras da Faculdade. A desculpa foi simples: ela queria conhecer a minha Faculdade, eu fui gentil em ciceroneá-la, e deixei a sala da Academia para o final.
Eu estava em uma época boa da minha vida: ralava à beça como oficial de justiça, mas a grana compensava. Eu podia ir às festas que queria, tinha dinheiro para convidar as minas para restaurantes decentes, podia viajar nas férias e ainda sobrava dinheiro.
Se não fosse isso, eu não poderia ter chamado para jantar em um lugar caríssimo a tal juíza-que-eu-não-sei-se-era-juíza que mencionei no Capítulo __.
Tiveram outras garotas nessa época. Não vou descrever todas, especialmente porque não houve fatos pitorescos que mereçam ser contatos. Mas voltarei ao tema quando falar da Faculdade, até porque vai ser divertido se alguma das protagonistas vier a ler esse livro e se lembrar do ocorrido...
terça-feira, 29 de junho de 2010
Capítulo XVII - A parte boa de São Paulo
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