Um rapaz saindo da adolescência, algum dinheiro e uma carteira de Oficial de Justiça é, seguramente, uma combinação explosiva.
Quando estava prestes a assumir o cargo de Oficial de Justiça, estava ansioso para receber a tal carteira de couro, com o brasão do Estado de metal, para poder dar “carteirada” bancando a “autoridade”...
No dia da posse, recebi uma cédula funcional de merda. Foi aí que o funcionário me explicou que as tais carteiras de couro eram compradas (!) pelos oficiais de justiça de uma empresa particular.
Logo nos meus primeiros dias de trabalho eu comprei a tal carteira. Poderia comprar a carteira com o brasão do Brasil ou com o brasão do Estado de São Paulo. Eu preferi a carteira com o brasão do Estado, pois eu era Oficial da Justiça Estadual.
Eu gostava de usar camisa com bolso na frente justamente para colocar a tal carteira de Oficial de Justiça nele.
O Oficial de Justiça, para cumprir mandados, tem livre acesso a qualquer dependências públicas ou privadas. Isso não significa que ele pode entrar em uma boate ou em um cinema sem pagar, só para se divertir. A prerrogativa depende da existência de um mandado a cumprir, não é um privilégio pessoal.
O engraçado é que a prática do uso dessas carteiras era tão comum, que havia um provimento do Tribunal proibindo seu uso. É óbvio que não era só eu que achava bonito sair dando “carteirada” por aí...
Quando eu tinha oportunidade, mostrava a carteira para os outros. Sei lá se alguém se impressionava com essa bobagem, mas o fato é que nessa fase de fim de adolescência e começo da fase adulta, eu me sentia importante por ser Oficial de Justiça.
Eu uma ocasião, que mencionarei no Capítulo __, foi útil ter dado “carteirada”.
Cheguei dar “carteirada” até em um baile de carnaval, em uma cidade do interior de Minas Gerais. Foi a coisa mais ridícula do mundo: apresentei a carteira de Oficial de Justiça do Estado de São Paulo para o porteiro do clube e perguntei (!) se poderia entrar de graça. O porteiro ficou na dúvida, falou com uma mulher que estava do lado dele, e ela disse que a carteira “não valia” e que eu teria de pagar se quisesse entrar. Eu tentei discutir, embora consciente do papel ridículo que estava fazendo, quando chegou um primo meu, que era sócio do clube e amigo do porteiro. Aí ele pediu para o porteiro me deixar entrar sem pagar. Foi a sorte, consegui me sair não muito mal da bobagem que tinha feito.
Em outra ocasião, em São Paulo, aconteceu outra coisa engraçada. Eu estava em uma boate com uns amigos, quando encontrei um grupo de oficiais de justiça, dos quais um deles era meu conhecido. Eu não tinha dado “carteirada” para entrar na boate, tinha pago normalmente. Só que um dos oficiais de justiça (amigo do cara que eu conhecia) tinha dado “carteirada”. A coisa estava correndo bem, quando começou uma briga não muito longe do local em que nós estávamos: um cara deu um sopapo em outro, por alguma razão que não sei até hoje. O fato é que os seguranças da boate intervieram, separaram os brigões e imediatamente chamaram o Oficial de Justiça que tinha dado “carteirada” para entrar na boate. Os seguranças chegaram próximos do nosso grupo e nós ouvimos a seguinte frase:
- Tem um cara da polícia aqui, vamos falar com ele para resolver o problema.
O cara que tinha dado “carteirada”, óbvio, ficou sem saber o que fazer. Eu também não sabia como fazer para ajudar o cara a sair dessa.
Outro Oficial de Justiça teve a idéia mais óbvia possível: dizer a verdade:
- Não, ele não é da polícia, ele é Oficial de Justiça.
Acho que os seguranças não sabiam o que era Oficial de Justiça, mas imaginaram que era coisa importante. Aí pediram orientação para o cara, perguntaram se poderiam dar uma surra (!) nos brigões para eles aprenderem que não pode brigar dentro de boate. Naquela época era muito grande o número de seguranças despreparados para a função.
O cara da “carteirada” continuava mudo, sem saber o que fazer. O outro Oficial de Justiça, que tinha dito a verdade, falou novamente a coisa mais óbvia novamente:
- Não, não pode. Bota os brigões para fora da boate ou chama a polícia. Bater neles não pode.
Os seguranças optaram por botar os caras para fora. Nós então ficamos rindo do cara que tinha dado “carteirada”, sacaneando ele, que não conseguiu articular nenhuma palavra na hora que deu confusão na boate. Ele agüentou a gozação calado, sabendo que tinha feito merda.
Depois desses fatos, decidi que não mais iria dar “carteirada”. Eu que não iria mais arriscar passar por esse tipo de vexame...
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Capítulo XVIII- Dando “carteirada” como Oficial de Justiça
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Gostei. Sou Oficial de Justiça Avaliador Federal e tenho uma carteira assim de couro, somente para identificação quando na função. Nunca dei carteirada, justamente para evitar embaraços. Mas conheço alguns "loucos"...
ResponderExcluirrsrsrs...eu me diverti com seu texto! Ainda bem que decidiu parar de dar "carteiradas" por aí. Sinceramente, além de tudo, aquelas carteiras são muito feias, não é mesmo? rs
ResponderExcluirO primeiro concurso que prestei foi para o cargo de oficial de justiça. Passei nele e tomei posse em uma Vara Criminal em Franco da Rocha. Depois, passei pelo Cível, Execução Fiscal, Juizado Especial. Hoje estou na Justiça do Trabalho.
Pretendo voltar aqui para ler os demais textos. Gostei do modo como escreve e de ler suas experiências.
Aline
Meu nome é Renato e hoje encomendei minha carteira preta com o brasão da república e com o a função "oficial de justiça". Sou bacharel em direito com 22 anos e estava ancioso pela "carteira preta", mas não pela "carteirada" sempre suspeitei que ela não serve pra nada sem o "mandado judicial". Engraçada a história, vou evitar falar minha função pra evitar constrangimentos. Abraço
ResponderExcluirPois é. Às vezes, no exercício da função, o Oficial de Justiça precisará fazer prova de sua identidade. Nesses casos, o uso da carteira é absolutamente necessário. O texto, porém, trata dos casos em que há abuso...
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