A etapa de transição entre a adolescência e a fase adulta fica marcada na vida de qualquer pessoa como um período especial. No meu caso, o traço marcante dessa etapa foi o trabalho como Oficial de Justiça.
Até certo ponto, o leitor pode pensar que a vida de um Oficial de Justiça é apenas o que foi descrito neste livro. É importante notar, porém, que descrevi nestas pouco mais de cem páginas apenas os fatos pitorescos ou marcantes. Não descrevi os dias em que simplesmente não aconteceu nada de interessante, as vezes em que fiquei dentro de um ônibus preso em um engarrafamento, ou a raiva que eu sentia quando marcava uma data e horário com alguém para efetuar uma diligência e tomava cano.
Ter sido Oficial de Justiça foi algo determinante na minha vida. Eu extraí várias lições, muitas das quais o leitor pôde perceber ao longo da leitura do livro.
A primeira lição foi a questão do estudo para concurso. Pode parecer óbvio que é necessário estudar com afinco para poder passar em qualquer concurso. O que nem sempre é tão óbvio é que qualquer pessoa como inteligência média pode passar em qualquer concurso, por mais concorrido que seja, desde que esteja disposta a fazer do estudo uma prioridade na sua vida. Infelizmente, uma grande parte das pessoas não acredita de verdade que pode passar e não estuda o necessário. Outra parte significativa não consegue ter o estudo como prioridade, em razão de questões familiares, em razão de ter um trabalho extenuante, ou por qualquer outro motivo. A possibilidade de uma pessoa nessa situação ser aprovada em um concurso mais concorrido é reduzida, mas não é impossível.
Não se dar por vencido, persistir, foi outra lição. Eu queria estudar na USP e somente fui aprovado no vestibular na minha terceira tentativa. E quando isso ocorreu, eu era Oficial de Justiça, trabalhava várias horas por dia, inclusive nos finais de semana, porque minha carga de trabalho era maior que a dos meus colegas. O curioso é que nos dois anos em que fui reprovado eu não trabalhava e, teoricamente, dispunha de todo o tempo para estudar. Foi na condição adversa de um trabalho extenuante que consegui minha aprovação. Evidentemente, o estudo dos anos anteriores contribuiu para minha aprovação na terceira tentativa, por isso estou destacando a questão da persistência como um fator decisivo.
A maior parte das coisas na vida tem um custo ou um preço. O que a pessoa precisa previamente definir é o que quer, bem como o custo ou o preço que deseja pagar pelo que deseja. Uma aprovação em um concurso é uma delas: paga-se um preço muitas vezes alto pela aprovação. Não são raros os casos em que a pessoa fica doente durante o processo de estudo em razão do esforço empregado.
Outro importante aprendizado de vida que tive como Oficial de Justiça foi a convivência diária com as mazelas do mundo. Refiro-me, especialmente, à pobreza e miséria que ainda existem em larga escala no nosso País. Evidentemente, isso teve um impacto determinante na minha ideologia política. Depois de ter contato com praticamente todas as classes sociais existentes no Brasil, passei a ter uma visão empírica do que é a sociedade brasileira. A partir dessa visão, toda minha ideologia foi moldada, como um passo natural.
A ajuda que tive dos meus colegas da 14ª. Vara Criminal foi outro aprendizado importante. Eu sempre fui metido a ser auto suficiente, do tipo que decide o que quer, faz tudo sozinho e arca com as conseqüências boas ou ruins. No trabalho como Oficial de Justiça eu percebi que não poderia ser assim logo no início da carreira. Eu vi que precisava de ajuda. Vi que eu também poderia ajudar outras pessoas. E tive um incentivo muito grande dos colegas (oficiais de justiça e escreventes) para meu trabalho. Nos momentos em que eu estava triste ou deprimido com o volume de trabalho e com a necessidade de continuar estudando para o vestibular, não faltou um colega para me incentivar. Nos momentos em que tive dificuldade para realizar alguma diligência, não faltou um colega para me orientar. Não foi por acaso que quando saiu o resultado da minha aprovação no vestibular eu fui (literalmente) aplaudido no cartório pelos colegas, ocasião em que prometi (e cumpri) pagar uma choppada para todos. Afinal de contas, a vitória não foi só minha.
Eu aprendi, no estudo para o concurso para Oficial de Justiça, que ninguém vence na vida sozinho: uma amiga da minha mãe me ajudou tirando algumas dúvidas. Eu aprendi, no trabalho como Oficial de Justiça, que mesmo as pessoas mais humildes podem e gostam de ajudar. Às vezes é motivo até de orgulho para essas pessoas poderem ajudar e isso faz muito bem a elas.
Aprendi também a dar valor às boas coisas da vida. É na ralação que a gente percebe a diferença entre uma vida difícil e uma vida boa. Quem nunca teve se de esforçar para conseguir o que deseja simplesmente não dá valor às coisas boas.
Eu quis escrever este livro não apenas porque considero a etapa como Oficial de Justiça uma das mais importantes da minha vida, mas para que as pessoas possam extrair algo proveitoso das experiências que tive. É evidente que vários episódios narrados neste livro são pitorescos, engraçados ou divertidos... Outros, ao contrário, são tristes e comoventes. O que considero o melhor deste livro é o dado de realidade que ele proporciona. Esse aspecto, certamente, é o mais importante. Em geral, pessoas de inteligência média aprendem com os próprios erros; já pessoas com inteligência superior aprendem com os erros e acertos dos outros também. Isso é o que eu propus ao leitor: aprender algo com os erros e acertos que descrevi neste livro.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Capítulo XXII - Conclusões
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Emoção, viu.
ResponderExcluirParabéns Bruno! Eis uma verdadeira lição de vida, de esforço e acima de tudo, de humildade.
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