terça-feira, 2 de março de 2010

6.Investigadores de polícia, carteiros, cobradores de ônibus e taxistas.

Nas diligências, era comum encontrar investigadores de polícia, mesmo fora das delegacias. Em uma entrevista que li recentemente na internet, uma oficial de justiça teria dito que a relação dos oficiais de justiça com a polícia era ruim. Digo, sinceramente, que essa não foi minha experiência. Pelo contrário, investigadores e agentes da polícia civil sempre davam boas conversas e eu os achava muito divertidos. Também não tive qualquer problema com policiais militares, mas em geral eles eram sérios e de pouca conversa.
Os policiais civis trabalhavam em dupla nas diligências com viatura. O agente policial dirigia o carro e o investigador ia no banco do carona.
Uma vez eu estava caminhando em uma avenida situada próxima à divisa com Diadema quando, subitamente, uma viatura da polícia civil parou na minha frente, o investigador desceu e disse bruscamente:
- É você que nós queremos!
Eu entendi na hora: eu estava com o guia de ruas na mão. E perguntei, já rindo da brincadeira:
- Vamos lá, que rua vocês querem encontrar?
Nisso o agente policial já tinha descido do carro e estava dando gargalhadas com a tentativa de susto que não deu certo e ficou mais engraçada ainda.
Eles me disseram o nome da rua e eu localizei no guia. Aproveitei e pedi uma carona para eles, que era para um local próximo. Mas disse que queria ficar uma rua antes da rua que tinha de ir, para não chegar no local em uma viatura da polícia.
Explico: chegar em uma viatura da polícia poderia assustar as pessoas e se eu estivesse buscando um réu, possivelmente haveria uma reação armada. No caso era apenas uma intimação de testemunha, mas mesmo assim eu não queria arriscar.
Os dois estavam conversando sobre um empréstimo e o investigador ficou dizendo para o agente: “se você não me pagar, ó...” e balançava o revólver...
Eu não consegui prender o riso e então eles me perguntaram se eu não gostaria de ir fazer a diligência deles com eles. Eu gentilmente disse que não, alegando que estava com muito serviço.
Não sei se ainda existe, mas naquela época alguns policiais civis permitiam a pessoas que não eram policiais acompanhar ou realizar as diligências com eles. A gíria utilizada para designar essas pessoas era “ganso”. Não faço a menor idéia da razão desse nome, mas imagino que nos momentos de suposto perigo, o ganso deveria gritar de medo ou de excitação...
Havia dois tipos de “ganso”: o que pagava para ser “ganso” e que recebia para ser “ganso”.
Eu nunca vi um “ganso” em ação, mas conheci um cara, um colega de faculdade, que era “ganso” (também chamado de gansopol, porque a abreviatura de investigador de polícia era investpol).
As histórias que eu ouvia eram mais ou menos assim: o ganso que pagava para ser ganso era normalmente um comerciante da Zona Leste de São Paulo que queria brincar de ser policial, indo em diligências para mandar os suspeitos colocarem a mão da parede, pedir documentos, gritar “polícia, todo mundo parado!”, essas coisas, tal como a gente vê nos filmes.
Mas havia o gansopol que recebia para fazer algum tipo de trabalho para os investigadores. Quem pagava? Ora, os policiais não iriam tirar dinheiro do bolso para pagar o ganso. Portanto, ainda de acordo com as histórias que eu ouvi - que podem ser mentirosas -, o ganso ficava com uma parte da res furtiva que poderia ser apreendida nas diligências (res furtiva significa coisa furtada ou roubada).
Claro que todas essas histórias de gansos eram divertidíssimas.
Um investigador uma vez me disse que o ideal seria uma equipe ter três tiras, pois aí “um dá cobertura enquanto dois chegam junto”. Essa frase foi dita por um investigador que conheci em uma delegacia. Ele era muito gordo, usava um bigode aparado em cima (para ficar comprido e estreito), deveria ter uns quarenta anos. Eu achei essa história da equipe ideal muito engraçada, mas eu a contei para outras pessoas que não viram nada de mais.
Esse cara contou também como funcionava o esquema de casas de massagens, que tinham uma placa escrita “relax for men” na porta. Teoricamente, casa de prostituição é ilegal. A prostituição, em si, não é crime no Brasil, mas tirar proveito da prostituição alheia é crime. Pois bem. Eu perguntei para esse investigador muito gordo como é que a polícia deixava essas casas funcionarem. Ele me respondeu:
- Olha, raramente a gente recebe ordem para dar batida nesses locais. Quando mandam, a gente vai, lavra o flagrante, prende o gerente etc
E ele completou dizendo que fora dessas situações, era possível ir a essas casas e pegar uma puta sem pagar nada. Mas ele fez questão de dizer:
- Mas a gente sempre deixa uma gorjeta para elas. Aí fica tudo certo.
Confesso que acreditei nessa história, porque não duvido de como o mundo pode ser cruel. Eu fiquei imaginando uma puta magrinha tendo que dar para o investigador gordão...
Outro profissional que eu sempre encontrava em diligências era o carteiro. Quase todos bem humorados, conheciam todas as ruas do bairro de cabeça (não precisavam nunca consultar o guia). Quando eu estava perdido, se surgisse um carteiro o problema estaria resolvido, pois eles sempre sabiam como chegar no local e sempre ajudavam.
Uma vez aconteceu isso e depois da diligência feita eu parei em um boteco. O carteiro estava lá tomando umas brejas. Já eram umas cinco ou seis da tarde e eu estava cansado de andar. Sentei à mesa com ele e começamos a conversar. Papo vai, papo vem, ele fez uma revelação:
- Eu tenho uma filha de nove anos fora do casamento. Só que a minha mulher não sabe...
Perguntei há quanto tempo eles estavam casados. Ele me respondeu que moravam junto há uns cinco ou seis anos. Então eu disse:
- Ué, por que você não contou para ela?
Aí ele me explicou que além do tempo em que moravam junto, teve um tempo de namoro, que ele ficou pegando as duas mulheres na mesma época. Contou o rolo todo, mas eu não prestei atenção nos detalhes, pois para mim o mais curioso era o fato dele contar a existência da filha para mim, que ele tinha concedido há menos de uma hora, e não contar para a mulher que divide a vida com ele.
No dia eu não entendi que ele queria apenas dividir a culpa que sentia por causa disso. Se eu dissesse que não tinha problema algum o cara ter uma filha fora do casamento sem a mulher saber, estaria tudo bem. Eu não cheguei a dizer isso, mas também não dei lição de moral no cara.
Com quem eu conversava diariamente eram os cobradores de ônibus. A maioria deles não gostava do oficial de justiça. É que o oficial de justiça poderia não pagar a passagem mediante assinatura em um mapa de ocorrências que o cobrador levava. Eu nunca soube exatamente como a coisa funcionava, mas a história que eu ouvia era que apenas os oficiais da Justiça Federal tinham direito a não pagar a passagem e que nós, estaduais, não tínhamos esse direito. O fato é que eu cheguei a fazer isto: me identificava como Oficial de Justiça e pedia o mapa para assinar e não pagar a passagem. Rolava um stress na hora, parece que o cobrador poderia ficar no prejuízo se não se lembrasse de comunicar ao supervisor que houve passageiro gratuito na viagem. E a minha cara de moleque não ajudava: um cobrador insinuou que minha carteira era falsa. Eu mostrei os mandados, perguntei se ele já tinha recebido um em casa. Ele achou melhor não esticar o assunto e me deu o mapa para assinar.
Como essa coisa de não pagar passagem não funcionava bem, eu adotei esse procedimento poucas vezes, apenas no começo da minha atividade como oficial de justiça. Alguns colegas, mais antigos, não faziam isso, dizendo que era melhor pagar a passagem, não ficar todo dia se indispondo com cobrador. Eu então segui essa orientação e passei a pagar o ônibus. Até hoje não sei se nós tínhamos ou não o direito de viajar de graça nos ônibus, seria o caso de consultar a legislação municipal para saber se o concessionário do serviço de transporte urbano tem ou não esse encargo.
No mais, ser cobrador ou motorista de ônibus em São Paulo não é um trabalho dos mais fáceis. Passar o dia inteiro no trânsito pesado, com o risco de assalto, inclusive fazendo horas extras, não é nada agradável. É um trabalho muito árduo. E olha que o trânsito e a criminalidade só pioraram nos últimos anos...
Uma vez um amigo meu da Executiva da CUT me contou uma história de uma reunião no Sindicato dos Condutores. A primeira frase que ele disse na reunião foi a seguinte:
- Quem estiver armado, mostra a arma.
Não era para entregar a arma, era só para mostrar. Ele disse que todos estavam armados...
Isso não me surpreendeu. Afinal de contas, eu ia freqüentemente ao Sindicato dos Condutores intimar os advogados que prestavam serviços para os associados. Só para cuidar da parte criminal eram, segundo um funcionário, dez advogados. O nível de stress que eles têm diariamente é muito elevado, não só em razão do trânsito pesado e do barulho infernal nas avenidas, mas também em razão da presença constante da violência e da criminalidade.
Por aí dá para se ter uma idéia de como é árduo, difícil e até mesmo perigoso ser motorista ou cobrador de ônibus em São Paulo. Posso dizer, seguramente, que essas pessoas são verdadeiros heróis. Infelizmente, não são tão reconhecidos e valorizados como deveriam.
Eu raramente pegava táxi para fazer minhas diligências. É óbvio: eu queria economizar. Além do salário, eu recebia mensalmente um valor por cada endereço que eu ia. Era um valor que variava mensalmente, porque dependia do número de endereços visitados pelos oficiais de justiça no mês. Ou seja, o Estado pagava todo mês um valor fixo, que era rateado entre os oficiais de justiça, com base nas planilhas. Como eu era um dos oficiais com maior volume de serviço, ganhava mais dinheiro. Mas era proporcionalmente pouco mesmo assim. Eu fazia a esmagadora maioria das minhas diligências de ônibus e só excepcionalmente pegava um táxi.
Em uma circunstância extrema, eu estava lá no cu do mundo e tinha marcado com um réu no fórum para fazer uma intimação, tive de pegar um táxi porque não estava passando nenhum ônibus. Fui conversando com o motorista assuntos triviais, quando ele perguntou se eu era oficial de justiça. Com certeza ele tinha notado a minha pastinha peculiar e a associou com o endereço do fórum. Eu respondi que sim, sem dar mais informações. Aí ele fez uma revelação, quase que como um desabafo.
- Eu já puxei cadeia.
Na gíria penal, “puxar cadeia” significa ser preso. Costuma-se dizer algo como “puxou cinco anos de cadeia”, no sentido de que o cara ficou cinco anos preso etc.
Nessa hora eu observei bem o taxista e vi que ele não tinha a menor cara de bandido. Aliás, é bom que eu deixe isto bem claro: bandido não tem cara de bandido. Não adianta desconfiar de alguém pela aparência, porque bandido não se parece com aquele cara que você pensa que parece bandido, mas sim com o cara comum que você pede informação na rua quando está procurando algum lugar. Nisso reside o perigo, que não surge quando você está alerta, mas sim quando está distraído ou relaxado.
O taxista era um cara que parecia ser gente boa, deveria ter um cinqüenta anos (talvez mais, não soube avaliar nem na época), eu jamais imaginaria que ele teria sido preso.
Eu disse um monossílabo, como um “ah”, pois não queria perguntar detalhes. Mas ele insistiu:
- Mas eu paguei.
Ele quis dizer “paguei pelo crime que cometi com a minha prisão”. Trata-se de uma visão comum entre ex-condenados: cometem um crime, se arrependem, sofrem muito com a prisão e depois se sentem aliviados da culpa em razão do sofrimento. Nada mais natural em um país ideologicamente marcado pelo cristianismo, que enaltece o sofrimento como meio de expiação dos pecados e obtenção do perdão final.
Eu não queria mesmo conversar sobre o tema, mas perguntei:
- Foi por causa de mulher?
Ele me respondeu, surpreso:
- Como você sabe?
- Eu não sei, só perguntei.
Diante disso, eu não quis mesmo continuar a conversa, porque o crime poderia ter sido o de estupro. Se fosse, o cara certamente teria passado maus bocados na prisão, porque todos sabemos o que acontece quando estupradores vão presos. Encerrei a conversa com algo como “então está tudo certo, todo mundo tem direito a uma segunda chance” e imediatamente comecei a falar do trânsito de São Paulo.
Na época, o trânsito já era ruim. Não era tão ruim quanto hoje, nem havia o problema dos motoqueiros, mas falar do trânsito com taxista em São Paulo é o mesmo que falar do tempo com britânicos ou de São João com nordestino do interior: sempre dá conversa.
Uma conversa com outro taxista foi bem interessante. Não sei porque eu falei com ele que eu era Oficial de Justiça, pois eu preferia passar “incógnito” nas diligências. Ele então me disse assim:
- Eu pago o maior pau para advogado.
Eu achei a frase interessante, e dei prosseguimento à conversa. Ele então me contou uma história:
- Eu mexia com drogas, mas coisa pequena. Eu morava com uma moça muito bonita que trabalhava na [nome de uma famosa boate de São Paulo] e trazia muito dinheiro para casa. Até o dia em que os homens botaram a mão em mim...
Eu entendi que o sujeito era traficante, morava com uma prostituta (deveria ser o cafetão da companheira) e teria sido preso pela polícia. Não entendi o que isso teria a ver com a admiração que ele tinha pelos advogados. Então perguntei:
- Um advogado conseguiu te soltar?
Ele respondeu:
- Não, eu fiquei um bom tempo preso.
Eu devo ter feito uma cara de surpreso e ele complementou:
- O advogado tomou todo o dinheiro que eu tinha! Desde então eu só dirijo este táxi, não quero saber de coisa errada. Um dia vou estudar “advocacia”...

1 comentários:

  1. O salario na época era bom? você demorou quantos meses para comprar seu primeiro carro? você conseguiu ficar com a garota que vc gostava afinal vc tinha um certo prestigio! nao sou bom no português sera que tenho chance como Oficial de promotoria!?? um abraço e parabéns pela etica na sua juventude! agora que ja é um advogado, ja nao sei! kkk screamer@ig.com.br

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